XII - O cão é o homem do cão


Enfim saíram os resultados do vestibular.  Não tinha por eles curiosidade, esperou a reação dos pais que naturalmente os buscariam e então os comunicariam.  Chega-lhe o pai. Tinha os olhos úmidos deveras; levava a cara dos desenganados, como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças, e vê sair branco o maldito número,—um número tão inteligente!
“Seu animal!” Disse o pai, com a ternura adequada ao momento “Como você, alguém inteligente, alguém que estudou nos melhores colégios, leu os melhores livros teve a melhor educação – você!”. Não disse mais nada. Estava rubro. Parece que o coração se fez bater tão forte que roubou dos pulmões todo o ar, e não pôde o patriarca fazer maiores elocuções. O pai não compreendia. Com aqueles resultados de simulados, como poderia o filho não passar? Estava na lista de espera para o segundo semestre. Nem passar para o segundo semestre o demente tinha passado. Todo dinheiro investido, toda a atenção dispensada para nada, para uma nulidade absoluta de resultados?
Cada atualização da lista de reclassificação era uma cena beckettiana. O pai, um Vladmir. O filho, um Stragon. E os meses passavam, números subiam, desciam e eram tão inconstantes, tão semoventes e tão comoventes que a cena se tornava uma tragicomédia. Nosso gênio falhara, a redação recebeu o pior dos conceitos. Minto, o segundo pior, porque o zero absoluto só é dado aos santos que não escrevem nada, nem chegam a escrever umas poucas linhas desconexas.
Mais uma lista chegava. E seu nome era o primeiro da lista dos que entrariam. Olhou para os nomes acima. Todos aqueles tinham a vaga garantida, certeira. Se apenas um deles sofresse, quem sabe, um acidente? Olhou novamente a lista. Uma miríade de nomes, dentre eles um conhecido. Conhecido e hospitalizado. Doença simples, sinusite básica que vinha com o tempo, mas que podia evoluir para uma pneumonia. Por isso a internação. Todo Vitor se tomou de um dever cívico de visitar tão ilustre conhecido, com quem já havia trocado meia dúzia de palavras importantes acerca do tempo e da ética dos cumprimentos. Foi visitar a menina.
Chegando ao hospital foi logo ter com a menina, atropelando visitantes, doentes, médicos e recepcionista. Abriu a porta do quarto com tenacidade de um Alexandre Magno em sua ânsia expansionista. Humanitas dentro dele pulsava, sua reprovação era um momento de contração, era chegada a hora da expansão. A menina dormia. Contemplou por alguns instantes. Era bonita, boa, muito boa, e melhor que ele. Ou assim dizia a lista. Ele sabia o que fazer. Conhecia uma substância, pesquisara na internet, composta de remédios simples vendidos em qualquer farmácia, mas que impediria o funcionamento dos antibióticos. Com isso a pneumonia e sua vaga estavam garantidas. E o equilíbrio estaria reestabelecido. Teria enfim o que era seu de direito, e beberia champanhe, e viajaria para a Europa, e sentiria o doce odor da França.
Saiu por aquela porta como se fosse o grande vestíbulo. Parou numa loja, satisfeito com seu ato verdadeiramente humano. A vaga era sua. Comprou um pacote de Rufles. Sabor churrasco. E a cada mordida, por menor que fosse o gosto de carne, sentia o gosto da menina. Sim, de fato Humanitas consumia Humanitas para a própria sobrevivência. A menina, mais cedo ou mais tarde, morreria. Eutanásia, sim, um ato de compaixão, por que não.
Viu um cachorro passar na rua. Perdão, o cachorro. O mesmo e ainda vivo. Viu com um ar escarninho e desprezivo. Fez menção de lhe jogar uma batata. Não jogou. Dispensara a carne de um quase morto doente, e, portanto, era pior que ele, posto que mais afastado da essência universal, Humanitas. E sentiu-se cheio de humanidade: era isso que diferenciava o homem do bicho. Ele não rejeitara seu impulso conservativo. O cão rejeitou. Pensou isso e se sentiu um Borba. Pensou isso e saboreou a última fração de sua vitória.

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