I - "Tu me amarás"


- Mas larga do meu pé!
- Eu não! Não desisti por todos esses meses, vou desistir agora?

      O ano era de 1951. As moças ainda deviam se dar ao respeito, ou, àquela época, ao menos fingir. Mas essa moça em particular não parecia se importar com isso. Seu nome era Pombinha, como todos a chamavam. Nunca conhecera o amor, nem em pensamento. Mas já fazia meses que perseguia Escobar a torto e a direito.  Se ele ia a uma festa, lá estava ela. Se ele ia ao cinema, ela não perdia a sessão. Se ele arrumava uma namorada, ela tratava de desfazer o romance em menos de uma semana. Já estava virando caso de polícia, quando, estando num bar e já inspirado, ele deu um ultimato:

- Ou me contas o motivo de tamanha perseguição, Pombinha, ou trate de não me procurar mais. Isso ou uma bala na cabeça, que lhe dou com prazer e sem cobrar taxa.

     A menina ficou aturdida. Primeiro por que pela primeira vez ele permitia que ela lhe dirigisse a palavra. Depois pelo ultimato. E por fim, pela grosseira gentileza de oferecer um final fácil para todos aqueles meses em que ela se punha ao seu encalço. Ela tinha de se recompor, recuperar o fôlego que perdera, encontrar palavras para responder, ou pelo menos um gesto, um sinal que explicasse tudo. Por sorte, foram as palavras que vieram:

- Tu me amarás. É só o que posso dizer. Batata. Como dois e dois são quatro.
- Mas isso é explicação que se apresente?

     O instante seguinte foi daqueles eternos. A moça tinha dito tudo, ou assim cria, e ao mesmo tempo não tinha dito nada. Ele não sabia como reagir a uma resposta tão descabida. A resposta era profética, assim o fez recuar de sua cólera e admirar, nesse átimo, o abismo infinito da profecia. "Tu me amarás", ela tinha dito. Mas como ela poderia ter tanta certeza? Ela parecia ter certeza. Se não tivesse, não o perseguiria por tanto tempo, não seria uma sombra incômoda e onipresente. Ele precisava saber o porquê de tanta certeza.

- Mas – ele pegou seu lenço no paletó e secou o suor da fronte. Já parecia mais calmo. – Que história é essa de eu – Eu! – te amar? Que brincadeira é essa, menina?
- Não digo – Disse, faceira.
- Ora diz ou eu...
- Você o quê? Me mata?  – Ela era desafiadora e confiante. – Não acredito.
- E não acredita por quê?
- Porque sei. Sei de tudo. Tu me amarás até que eu morra, e enquanto tu não me amares eu não posso morrer.
- E queres morrer? – Ele riu.  Depois, sarcástico – Mas aí então minha proposta da bala é a melhor opção.
- Não quero morrer. Quero ser amada. E serei. Serei amada por você. Agora, até mais ver.

     E ela se retirou. Ele sentou num banco de frente ao balcão e novamente secou a fronte. Que coisa era aquela de amar? E tão de repente! E tão confiante! "Batata. Como dois e dois são quatro." Ele ouvia a voz dela ecoando nos corredores de sua mente, já inundados de algumas cervejas que tomava com amigos, logo antes de perceber que ela estava no bar. "Não posso morrer". Como assim não pode morrer? Que história era aquela?

- Silveirinha, me pendura um escocês daqueles. Dose dupla.
- É pra esquecer, doutor?
- Não Silveirinha, é pra entender...

     O dono do bar não entendeu, nem se preocupou em entender. Quem não atinava era nosso rapaz. Por cinco meses essa menina o vinha perseguindo e só agora ele percebia sua existência como pessoa. Antes, era só uma sombra. Agora, uma sibila. "Serei amada por você". Profecia ou maldição? E o uísque o fez lembrar-se das três bruxas da Escócia de Shakespeare.

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